quinta-feira, 1 de outubro de 2009

desumanidade

somos como formigas indisciplinadas
correndo sem saber para onde
e os cegos pensam enxergar
mas quem enxerga diz: "sou cego"
e atribuem loucura a toda sabedoria...
.. que estavam ocupados demais para entender
e os que julgam saber, pouco sabem
e os que sabem, lamentam não saber
e o homem se fez complexo demais
que já não entende as coisas simples
deixando de ser humano por apenas homem
que já não olha em volta, nem vê o sol
me disseram que la fora é dia
mas parece tão escuro...

domingo, 27 de setembro de 2009

gesticulava
mãos e rosto em expressões absurdas
seu olhar aflito acabava-se em apelos
suas mãos inquietas não tinham voz

gesticulava a todos, mas ninguém o entendia
se ao menos se ouvisse um leve murmurio...
seus gestos eram seu desespero
gesticulava em pausa, como se respirasse

mas não se encontrava, não se compreendia
apenas gesticulava inutilmente
não havia erro em seus gestos
mas a palavra que sentia
era inexistente no mundo dos homens

sábado, 19 de setembro de 2009

Homicídio

Seus pés cambaleavam na escuridão do mato em que se embrenhara, tentava correr mas suas pernas tremiam. Tentava não fechar os olhos para não lembrar-se, mas mesmo perante a escuridão da noite, a culpa açoitava-lhe em sua condenação repentina. Mesmo com o pouco que lembrava...
Havia ferido um homem, fora até ali um cidadão, agora era um assassino.
O desespero já lhe corroía, olhava para os lados aflito, talvez logo chegasse para prende-lo, era um homicida.. um criminoso.. e o que fazer agora? Não sabia como ser um criminoso.
Na aflição de seus pensamentos, não percebeu quando o matagal se transformou em uma movimentada avenida. Olhava apavorado para as pessoas que passavam à sua volta, saberiam do que ele fez? Esperava que a qualquer momento alguém apontasse o dedo e lhe acusasse, mas ninguém se importava com sua presença, apenas prosseguiam.
Tudo desabava à sua volta. Sempre esperou ser algo importante no futuro, mas não isso, não é preciso fazer três faculdades para simplesmente matar um homem.. agora porém sentia que tudo acabava, havia ferido um homem.. sem motivo algum. Mas como ?
Esforçava-se por lembrar da cena, mas ela parecia muito longe, em uma época diferente.. tudo que lembrava era o corpo morto caindo à sua frente. No momento em que se tornara de fato um homicida. Agora fazia parte do lado escuro da sociedade, o que fazer?
Por um momento as palavras vieram-lhe à mente, precisava esconder o corpo, não sabia onde estava mas inexplicavelmente soube pra onde ir. Sua mente parecia muito a frente de seus medos, assombrou-se com a ideia de que já pensava como um assassino.
As pessoas continuavam sem notar-lhe, talvez não houvessem encontrado o corpo ainda, havia tempo, se soubesse como o havia ferido teria mais certeza, não lembrava-se de possuir uma arma, nem qualquer outra coisa que pudesse ferir um homem, talvez o tivesse rendido com as próprias mãos, mas não parecia lógico à seus braços fracos. Mesmo que não soubesse, precisava esconde-lo, e então fugir.
Agora estava à frente do casebre de onde fugira, a porta aberta, do jeito que deixara. Uma luz acesa iluminava o quintal à frente da janela. Esgueirou-se pelos cantos escuros até chegar junto à porta, então parou a escutar... silencio. Após alguns minutos considerou que estava vazia, então entrou.
O corpo estava lá aonde deixara, mas coberto com um lençol, já o haviam encontrado. Tomado de panico, procurou algum lugar para se esconder, não havia móveis, ajeitou-se como pôde atrás de uma porta. Talvez já tivessem notado sua presença, esperavam apenas o momento de lhe capturarem. Seu corpo tremia, tentava controlar os dentes que batiam furiosamente e ouvia. Apenas o silencio. Talvez quem o encontrara jugasse que estivesse dormindo e fora-se embora.. ou talvez ele mesmo o tivesse coberto e não se lembrava. Apesar de já tranquilizar-se, esperou mais alguns minutos, talvez alguém aparecesse.
Tempos depois, decidiu que era hora de agir. Precisava esconde-lo antes que alguém percebesse, e então fugir para o mais longe possível. O matagal ao lado da casa parecia ser um bom lugar, de fato o único, considerando que não tinha ferramentas. Ainda atrás da porta, planejou em silencio cada movimento, em minutos havia tornado-se um assassino frio e calculista.
Mas agora em meio a tudo isso, uma duvida surgiu. A quem ele havia ferido? Por mais que pensasse não podia lembrar. Já convencido de que não havia mais ninguém na casa, foi até o corpo, ainda com certa cautela, olhando para todos os lados. Abaixou-se junto à ele e descobriu seu rosto.
Pôde sentir o tremor súbito dominar-lhe, suas pernas já chacoalhavam, a mente latejava em terror e dúvida. As paredes giravam em vertigem à sua volta, pouco podia entender. Olhou outra vez, a sensação era a mesma, sua cabeça já doía, o cérebro trabalhando condenadamente a solucionar o caso.
E seu reflexo do espelho de todos os dias, agora à sua frente. Estático, branco e frio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

tempestade

ouvia o som das goteiras, imaginava as telhas quebradas
já contara e conhecia cada buraco observado em dias de sol
o chão em que dormia se umedecia... se encharcava
seus calafrios eram convulsões, suas convulsões, espasmos

a janela quebrada deixava entrar a luz piscante da noite
gostava de ver a chuva quando criança...
sabia antecipar cada trovoada, mais fracas e mais fortes
fazia-se parte dela, trovoes e espasmos
e o vento frio em seu corpo molhado

ficou alerta por um momento, seria perto e grande
como na infancia, tapou os ouvidos , encolheu-se
uma arvore se incendiou la fora.. mas não pode ver
a chama vencida se tornou em fumaça
seria bom ver o fogo, mesmo que não se aquentasse

tentou consolar-se sentindo algo de si mesmo
apenas um coração batendo em meio à tempestade
cravado de seus espinhos... só em definitivo
paredes nuas assistiam-lhe no casebre
relâmpagos refletiam em suas lagrimas
já perdido em sua falta de si mesmo

jogava-se contra suas paredes
forçava algemas invisíveis
odiava sua prisão inexplicável

as trovoadas sacudiam as paredes e o teto
diante de seu rosto placido, seu choro silencioso
não tinha medo, não podia senti-lo
seria parte da coragem que já não tinha
agora era constante, covarde
se tivesse medo, seria da morte
mas já não tinha coragem de viver
seria só um rosto... sobrevivendo..

mas por que não desistira?
de que era feito esse fio que lhe segurava?
talvez de que sonhara quando menino?
de algum sorriso perdido no mundo?
e se realmente tentasse?
o que tinha a perder?

viu-se misteriosamente vivo
a luz da noite era diferente
lembrou-se de dias distantes
encontravam-se outra vez

olhou pra si mesmo, o que era, onde estava
tinha vergonha das roupas rasgadas
de sua pele suja, barba e cabelos desgrenhados
como se tornara nisso?
como se acordasse de um sono profundo
enxergava nitidamente, sem as nuvens de outrora

seu pequeno fio era agora uma corda
enfurecia-se de onde chegara
seus punhos contra o chão molhado
não se compadecia, tentava dar novas forças
aos membros a muito esquecidos

acariciava as paginas sujas
tentava colar os rasgos com lagrimas
podia vislumbrar palavra a palavra
sob a luz de cada relâmpago

"seria"
ecoava-lhe na mente, decidira-se
"seria"
calculava, empolgava-se
"seria"
o que seria?
uma duvida invadia-lhe a mente
o que poderia ser? agora?

sentiu mais uma vez os músculos fracos
não podia ser nada enquanto chovesse
teria de esperar... sempre a espera
seus calafrios diminuíam
seu corpo já gelado não tremia

a espera...
tentou fechar os olhos... tentou sorrir
e esperar...
"se amanha não chover..."
as trovoadas cada vez mais distantes
"se amanha não chover..."
o som ao longe de uma sirene
"eu posso ser alguma coisa..."
mais sirenes.. mais trovoadas
"mas o que? "
uma arvore caindo, agora sim chamas
"não sei.. qualquer coisa."
som de passos lá fora, se aproximam
"posso ser o que você quiser"
som de passos lá fora, se afastam
"talvez possa ser bom... poderia?"
a chuva cessa... as trovoadas se distanciam
"esta decidido..."
por entre as nuvens surgem de novo estrelas
"amanha vou ser melhor que hoje."

seu pequeno fio agora é um pilar
uma esperança incompreensível
que leva o homem a ter sonhos.
talvez contente, talvez zombando...
a lua espia sorrindo
e prossegue sua noite.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Caixa de Vidro

O desespero escondido...
atrás do sorriso falso.
batendo contra as paredes
num desgaste inutil.

Dentro do olhar sombrio,
um grito abafado
um soluço contido,
espinhos que não saem sem sangue

perdendo o resto das forças
um só sussurro por liberdade
restos da alma despedaçada
no vácuo de uma caixa de vidro.

domingo, 16 de agosto de 2009

saudades roubadas

É o que sabe, é o que não diz, mas reflete em seus olhos enxarcados de fim de tarde, de algum sonho esquecido soam ecos, inexplicáveis saudades de pés descalços e bolas de gude, de conversas assentadas na poeira do chão, suor de dia quente respirando ar puro. Das invariações dessa casta inocência do riso natural e sem motivo.. sem motivo lembra.. sente.. mas como , se não viveu? acaso não seriam quartos escuros janelas fechadas, paredes mofadas? De que natureza roubaste tais lembranças? Por que sentes se não viveu, tal seria o tempo a ferir até o negro da alma? Ou a felicidade um recurso vital que se procura por instinto? O que não foi e mesmo assim se sabe, que não se vê mas mesmo assim se procura... apenas vontade de ter vivido.







Não.. não... não pare agora.... podemos continuar até que o mundo seja nosso, talvez só esperar um pouco.. até ver essa fraqueza passar... não sei, não sei, meus olhos se fecham... apenas diga mais uma vez, apenas fale-me qualquer coisa... gosto tanto de sua.. pronúncia...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Apenas um rosto acariciado pelo vento
somente aquele olhar mais uma vez perdido
se pudesse ver algo, escolheria o mar
ou qualquer coisa alem de telhados e anternas

pensou que se talvez pudesse
acontecer algo nesse instante
naquele instante...
naquele instante...
mas nada acontece enquanto espera

se talvez pudesse ver ou imaginar
algo tão grande, tão imenso
a ponto de cobrir o vazio que era
ai então...
então o que?

O futuro era só uma folha em branco
somente telhados e antenas
somente a conhecida tristeza
somente a realidade.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ebulição

Sem sol.

A pele arrepiada de frio e suspiros

sempre consecutivos


é um medo estranho

dividir o dia em fatos

procurar algum assunto

que não acabe em silencio


a carne espumando na panela

com o frio se vê o vapor todo

um exercito de serpentes

todas de uma mesma fumaça

enganadas de seu próprio engando

avançando ao desconhecido


cada vez mais longe, é o que me assusta

já não mais simples distancia física

um estranho privar-se de sonhos

abster-se da felicidade


a carne espumando na panela

vapor indeciso entre calor e frio

minha carne, meus pedaços

eu ardendo sob o óleo quente

vivendo de fatos, não mais de sonhos

procurando por algo que aconteça

talvez agora...

talvez agora...


sem vento, sem asas

dormir e acordar

sem relógio, sem tempo

talvez amanhã.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aulas de gravura

Como as coisas se movem do outro lado da janela... Ruas pontilhadas de chuva sob a luz amarelada, pó de ouro derramado a brilhar aleatoriamente. As teclas do piano tagarelando alegremente, não que fosse realmente um piano.. a musica artificial sempre parece sem vida, como a voz artificial que a interrompe anunciando a próxima parada.

Tento lembrar-me de algo interessante... aulas de gravura. Mas que é gravura? Talvez algo gravado em algum lugar, por algum motivo, de algum modo... a gravura gravada na gravação gravável do gravados que tem gravadas em si gravuras... talvez algo apenas marcado por todas essas marcas do tempo que nos fazem e nos dão versos... talvez um muro borrado de varias cores.. ou um céu de tarde... algo que grave, marque ou ate seja gravado em si, por algum tempo ou para sempre...

Não... não sei o que é gravura, mas gosto de imaginar que eu a seja.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Almoço

- Sua comida está esfriando, Alice.
Ela observava seu prato com o olhar perdido, o garfo e a faca parados no ar, enquanto fragmentos de conversa se misturavam à seus pensamentos borbulhantes.Observava os gestos espontâneos e um tanto indelicados de Cláudia. Apesar da rigidez e a cara de poucos amigos, aquela mulher dava tudo de si pelos outros. Devia ter seus próprios problemas, mas deixava-os de lado para cuidar de uma família que não era dela. Cláudia podia resolver qualquer coisa, podia ser tão áspera quanto gentil, era difícil imaginar Onésio vivendo sem ela.
O meio tom da conversa silenciou subitamente, as cabeças abaixadas demonstravam que chegara-se ao assunto corriquenho daqueles dias, ninguém falaria mais nada por algum tempo.
Completamente alheia , Alice apenas observava, colhia expressões inconscientemente, absorta em seus próprios pensamentos, não tinha muita fome , mas mal podia esperar para fazer um bolo com Claudia, não que gostasse muito de cozinhar, mas estando com ela sentia-se menos sozinha. Os talheres retiniam quebrando o silencio e os pratos se esvaziavam. Quando todos se levantaram, Alice fitou ansiosa o rosto de Cláudia que lhe sorriu.
- Me ajude com a louça e logo começamos.
- Certo!
A agua da torneira cortava o silencio e tudo voltava a ser apenas dia.



quarta-feira, 1 de julho de 2009

cinza



Hoje escrevo...
não sei.. mas escrevo.
e havia uma garotinha..
ela tinha um grande cachorro branco...
seu pelo chegava a brilhar, branco como a neve
(e é dificil encontrar um cachorro assim)
e a garotinha sorria por dentro,
sorria de como amava seu cachorro branco...
de como seu pelo era macio e bonito
de como o dia era claro e a grama verde.
acho que aprendi algo com eles...
as pessoas, depois que crescem,
tornam-se ignorantes às coisas belas
quisera aprender mais, mas por descuido, abri os olhos
agora são só paredes mofadas
mas vejo o caderno em minhas mãos
vejo que escrevo, mas por que escrevo?
mesmo sem saber... por que?
talvez porque hoje é cinza.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

surto de normalidade

A jaula estranhamente fechada...
restam-me palavras vazias.
Qualquer coisa que me passe o tempo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Vácuo

minhas palavras tolas...
frases desconexas...
perguntas errantes..
impróprias...
só queria que...

domingo, 31 de maio de 2009

Reticências

Hoje sou reflexo do s seus olhos.
Sou sua sombra, sou qualquer coisa...
desde que me faça estar mais perto
Sou uma mente perdida
te procurando em sonhos
sou meu medo, sou covarde
sou o que me apoia e o que me acusa
o que te busca
quisera ser algo mais perto
saber o que pensas, o que sentes
transformar tudo em sorrisos
mas ainda sou longe
sou a gota que cai a qualquer instante
sou a imagem torta no espelho quebrado
tudo o que é imperfeito
tudo o que é inexato
não sou nada do que queria ser
quisera alegrar-te em minha existencia
quisera mudar-me, ser-me, ser-te...
mas por enquanto...
sou reticências.

sábado, 30 de maio de 2009

talvez pelo vento

Se visse o mar, ele estaria agitado hoje...
não pelo mar.. pois não o vejo
mas talvez pelo vento
ou então por mim mesmo
tão cheio de tantas coisas que passam tão rápido...
e tão rápido voltam,
equações estúpidas,
teorias imensas de como dar tudo errado,
mas onde está eu?
que sempre abominou o complicado,
que tentou sorrir e não esse
que parece me odiar tanto..
talvez me lembre de um dia ser assim
agora tendo que lidar todos os dias
com esse que é contra mim, mas é a mim
não sabes que destruindo-me, destrói a nós?
deixe-me em paz enquanto penso em alguém
esqueça suas teorias, já tenho minhas escolhas
e hoje senti mais uma vez...
pior do que tudo é a distancia,
vi que você tentou
não sabia se você estava triste ou não
isso me atormenta.. com tudo que imagino
se estivesse aqui, te levaria para ver o mar
ele está agitado hoje, sei que está
mas nós.. juntos.. não.
somos o repouso, a superfície do lago em brisa leve
sim, sou agitado ultimamente,
mas não com você
talvez pelo vento...

sábado, 23 de maio de 2009

Hoje lembrei...

Hoje enquanto o sol espiava pela janela,
Lembrei do que a muito havia aprendido,
Que os dias chegam, passam, se esquecem,
que o único que conhecemos é o hoje.
que a esperança é esperar pelo futuro,
e que a fé é fazer com que tal exista,
mas não sabia que o sabia...
de muito tempo.. adormecido.. lembrei,
lembrei de considerar as incansáveis formigas,
que tão pequenas vencem grandes distancias.
lembrei que a terra nem sempre será firme
mas que podemos voar a qualquer instante
lembrei que as palavras trazem à existência,
mas o silencio é melhor em muitos casos..
Que talvez por algum motivo -possa ser odiado,
Mas que devo ser grato pelos que me amam,
e por que amo.
lembrei que nem tudo é tão escuro,
que sempre há luzes ao longo do caminho,
hoje.. que tanto precisava, lembrei...
posso ser fraco demais para talvez vencer,
mas não o bastante para desistir.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Enquanto chove...

Pedras são apenas pedras... mas devem ter seu proposito, mesmo que seja ficar paradas em seu lugar.
A agua que cai sobre elas tambem parece ser util, seja para o bem ou para o mal, seja para dar vida ou para tira-la.
As plantas ao fundo parecem ser mais simples... concentram-se apenas em crescer a qualquer custo.
Mas e o homem que a tudo isso ve? Que tem ele a fazer se não observar tudo com seus olhos abobalhados?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Egoista"

Havia muitos desenhos naquele muro, mas um em especial sempre chamava a atenção de David: a estranha mulher de camisola vermelha com seus olhos cansados, porém cortantes. Havia outras figuras legais como o olho desenhado em volta da câmera de segurança e o homem baixinho com chapeu e nariz gigantes, mas era a mulher que o deixava perplexo naquela tarde.
Ela era incrivelmente magra, a ponto de parecer apenas um esqueleto pintado com a cor da pele, seu rosto tinha manchas estranhas que deveriam ser rugas, na altura de sua testa, com algum esforço, conseguiu ler a palavra "egoísta". Nesse momento foi sacudido pelo braço enquanto ouvia a voz irritada de Sandy, abafada pelo ônibus que passava por eles.
- Acorda menino! Já não te ensinei a atravessar a rua?
Ele não gostava quando Sandy falava-lhe com esse ar de superioridade, mesmo quando ela estava certa. Ela era só dois anos mais velha e mesmo assim, agia como se fosse sua mãe. "De qualquer forma"- pensou - "pelo menos não fui atropelado".
Eles atravessaram a rua em silencio e afastaram-se do muro desenhado. Ainda pensativo, David arriscou perguntar à irmã:
- Sandy, por quê a mulher egoista do muro é tão magra?
Ela olhou-o como se fosse a pergunta mais idiota do mundo, depois olhou o vazio concentrada, como se fosse a mais dificil, finalmente concluiu:
- É simples. Essa mulher está ai todo dia e o dia todo hà mais de três anos! E, que eu saiba, ninguém vem trazer comida pra ela, por isso ela é magra assim.
Convencido com a resposta e com o humor da irmã, decidiu arriscar mais uma pergunta.
- Mas o que é egoista?
Sandy pensou um pouco e depois deu de ombros jogando as mãos ao vento.
- Sei lá... deve ser uma pessoa com fome.
Os dois seguiram seu caminho hora em silencio, hora fazendo piadas. Depois de um tempo, David aprendeu o significado real da palavra egoísta, mas sempre a imaginava como uma mulher magra de camisola vermelha.

sábado, 4 de abril de 2009

Nuvem

Tens razão.. não eram diamantes,
só gotas caídas de chuva fina,
não era densa névoa de sonho,
é somente uma nuvem...
imensa e vagarosa nuvem,
e a espera é esperar que tal nuvem pesadamente se mova.
Mas então seria apenas noite...
talvez seja melhor a nuvem...
se não fosse a espera...
resta ao resto ignorar o tempo,
e ao inconformado o conformar-se com a realidade da maioria.
só achei que fossem diamantes...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Noite

Volto em sonhos à uma noite clara
As luzes amarelas nas ruas vazias
a pálida beleza da completa ausência
Nada se move,
Nada se fala,
Nada respira,
Somente o leve pulsar da noite.
Caminhamos
Os passos contidos,
A respiração presa,
Temendo acordá-la.
Assim.. silenciosamente,
Pode-se libertar os sonhos,
fazer o que era impossível,
enquanto todos observavam,
Apreciar a liberdade da solidão,
e a solidão da liberdade,
aproveitar cada minuto,
Pois sabe-se que vem a manhã
se acordará do sonho, ainda com sono
nos lembraremos e concluiremos
que seria uma bela noite...
caso houvesse existido.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

mais de alice

Quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três... Boas meninas. Hoje fui ver meu pai outra vez... Mesmo sabendo que ele vai sair de lá logo, ainda me sinto vazia... Não sei bem o que pensar de tudo isso... Sei que as pessoas não deviam se matar, não deviam ter jogado mísseis, não deviam fazer nada disso... Nós devíamos ser como vocês, vivendo juntas no mesmo teto, mesmo sendo tão diferentes... Quanto tempo eu dormi?
O relógio no criado mudo marcava quinze horas, Alice sorriu, ainda tinha um pedaço de domingo pela frente. Olhou seu próprio sorriso no espelho, podia sorrir tão facilmente quanto chorava, sentiu se melhor sorrindo.
Ajeitou a boina na cabeça e recolocou os sapatos, alguém teve o cuidado de retirá-los antes de pô-la na cama. Desceu para a cozinha, onde uma pilha de pratos na pia denunciava que já haviam almoçado, não sentia fome, dirigiu-se a pia e começou a lavar os pratos e talheres, a água gelada feria-lhe até os ossos, mas ao mesmo tempo causava uma sensação gostosa, tornando tudo à sua volta mais real.
- Coma alguma coisa, Alice. Você não come nada desde cedo.
Diego apareceu na porta, seu olhar distante lhe fitava com um cuidado quase paterno. Alice tinha contado os pratos, sabia que ele também não havia comido, mesmo assim ele se importava em cuidar dela. Diego era só um ano mais velho que Alice, mas sentia-se responsável pela irmã.
- Estou sem fome, mesmo que eu tente, não vou conseguir comer.
Diego deu de ombros sabendo que era inútil insistir e ajudou-a a secar os pratos, a louça tilintava tentando esconder o silêncio quase fúnebre. Apesar de não falarem entendiam seus mútuos pensamentos.
Antes de sair da cozinha, ela olhou mais uma vez para Diego.
- Obrigada por se importar comigo.
Ele deu de ombros:
- Todo mundo se importa.
Alice sorriu para o irmão e saiu a procura de Onésio; o tio lia o jornal sentado em sua poltrona. Apesar de pouco ter olhado, um detalhe não escapou à atenção de Alice.
Tio, esse jornal é de ontem.
Bom, não importa muito, as noticias são as mesmas. Está se sentindo melhor?
Sim, tio; acho que vou dar uma volta.
Tome cuidado Alice, fique longe dos militares... e não demore muito, já está tarde, essa hora eles começam a beber.
Esta bem, eu volto logo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sorriso

Desenho um sorriso no rosto em branco;

Um sorriso de criança, torto e puro.

Faço olhos de lua minguante tortos

e cílios exagerados


Desenho um sorriso sem sobrancelhas,

mas com bochechas bem definidas;

Por capricho as faço coradas,

Em feição infantil e doce


É de fato um belo sorriso,

mas não é um sorriso verdadeiro,

é sincera a criança nele contida,

mas mesmo assim parece ilusório.


Eu, maldoso, minto à mim mesmo,

e desenho um sorriso,

mas não estou sorrindo.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Equilibrista

Entre o amor e o ódio
O jovem equilibrista
Sobe sua descida
Cumpre sua jornada

Em seu rosto, um sorriso improvisado
Os seus passos se efetuam com cuidado
E cada mão leva um estranho guarda chuva
Enquanto o sol castiga sua plateia

E segue o jovem equilibrista
Entre o amor e o ódio
Se move com tamanha destreza
Entre um e outro, faz piruetas

A plateia se fascina
O show se desenrola
Todos ficam boquiabertos
Às façanhas e expressões
De tão eximo artista

E se vê em suas expressões
Expressões de circo
Se nota em sua plateia
Plateia de circo
Em seu fantástico feito
Numero de circo

Mas não há sinal do circo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Gaiola

Desespero
(O constante bater de asas contra as grades)
Cativo
(O andar de um lado a outro sem esperança)
Inútil
(O silencio de um ultimo fôlego já sem voz)

O fechar de olhos,
conformado e preso,
por dentro e por fora.

Imagino

Imagino seus olhos, seus gestos
a falar sobre a frieza da humanidade
imagino a mim mesmo, tão feliz por dentro
olhos atentos a cada palavra
Imagino ter encontrado...

e tentei desvendar seus olhos
mas não sou mesmo bom nisso
só percebo que talvez
você busque o mesmo que eu
mas são palavras ao vento
pois nada sei, somente imagino
e adormeço sorrindo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Narciso

O relógio do quarto marcava meio-dia, o homem da cama ao lado havia acordado e tomava um prato de sopa, auxiliado pela enfermeira.
- Bom dia, seu Pedro! Intão foi dá uma volta hoje?
Pouca coisa havia sobrado àquele homem, a perna que não tinha sido mutilada, era devorada dia após dia pelo tétano. Um de seus braços terminava em uma atadura logo abaixo do cotovelo, e um rosto desfigurado por alguma explosão completava a imagem lastimável do pequeno homenzinho que sorria em seu leito. Poucas pessoas haviam perdido mais do que ele naquela guerra, mesmo assim, nada o fazia esconder aquele sorriso amarelo.
Como ele podia sorrir nessa situação? Como podia transmitir tanta força aos outros sem ter aparentemente nenhuma?
Quando conheceu narciso, Alice perguntou a seu tio como podia ser isso.
- A Esperança é difícil de tirar das pessoas, Alice.
Ela não perguntou mais nada, mesmo assim, não deixo de imaginar como tal homem podia ter esperança. Ninguém de sua família havia sobrado, sua casa era um monte de ruínas, estava condenado a mendigar para sobreviver, e como pois sorria esse homem?
- Ah Narciso, como precisava respirar um pouco, sentir um cheiro diferente... e por falar nisso, que cheiro bom dessa sopa hein!
A voz do pai despertou Alice para a realidade, ela tentava acompanhar a conversa.
- É seu Pedro, logo oçê também vai tá metendo o beiço nessa sopa aqui, e sabe o que mais, o governo vai mi da um par de pernas!
- Pernas?
- É, pernas micânicas! Ai só vo precisa de um par de muletas!
- Mas como vai segurar as muletas?
- Ah, isso nois vê dipois, que importa é que eu vô ter pernas otra veiz, a idéia di dependê de rodas pro resto da vida já tava me incomodando.
Alice sorriu, a maneira como aquele homenzinho dava valor às coisas lhe desafiava a compreensão.
- E seu istômago?
- Já esta quase bom, mais uma semana e poderei tomar sopa com você.
- Squéci a sopa, Pedro. Daqui um tempo nois vamo come é churrasco.
- É... churrasco!
Alice olhou mais uma vez para o sorriso amável do pai, talvez daí ele tirasse forças para suportar tudo. De um pequeno toco de homem, que possuía um grande sorriso.
- Senhores, o tempo de visita acabou.
Alice sentiu seu estômago gelar. Teria de ir outra vez, ir e deixa-lo ali... grudou-se ao pai novamente e tentou fugir dali, esquecer tudo e voltar aos dias bons.
Agora estava de volta à pequena sala, voando nos braços do pai, seu coração batia apressado, mas não tinha medo de cair, podia voar o quanto quisesse, sempre haveria os braços fortes lhe segurando.
- Vamos, Alice. Temos que deixar seu pai descansar agora.
Ela se deixou retirar, mas antes de ir, correu ao leito de Narciso.
- Por favor, cuide do papai.
- Fique tranqüila, mocinha. Deus ta cuidando dele, Ele cuida bem de todo mundo, e seu pai é um homem muito forte.
Sim, ela sabia, só queria ser tão forte quanto ele...
Deixou-se levar pelo corredor do hospital, aos poucos voltava a lembrança da sala onde voava, sem precisar sentir medo.
A paisagem que passava pela janela já não parecia ter sentido, tudo se misturava em uma grande mancha cinzenta. Alice sentiu ter deixado parte de si mesma no hospital, o vazio já tão grande, agora aumentava. Não sabia mais o que pensar, o que ouvir, nada mais fazia sentido, os olhos ainda molhados de lágrimas se fechavam lentamente, na tentativa de fugir de qualquer coisa.