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quarta-feira, 9 de março de 2011

Estrada sem chão (zero)

Abriu os olhos e não havia nada que quisesse realmente fazer. Olhou em volta checando os estragos da tarde anterior e ficou a imaginar até que ponto poderia chegar tudo isso, ainda procurava por algo mas parecia cada vez mais longe de descobrir o que era.

Os musculos ainda estavam doloridos, a tinta seca grudava sua pele de modo incômodo, tentou levantar-se devagar. O espelho anda refletia a mesma Alice de sempre, porém num estado um tanto pior, o rosto exibia uma mistura seca de suor, lágrimas e tinta. ela abaixou a cabeça desviando o olhar da garota do espelho e arrastou-se até o chuveiro.

Enquanto a agua do chuveiro dissolvia a tinta branca ela tentava encontrar algum sentido em qualquer coisa. Todas as lembranças não passavam de uma névoa distante e ela achava melhor assim, mas ainda tinha essa falta de tudo como se a estrada simplesmente desaparecesse em todas as direções. Normalmente usava a imaginação para inventar seus dias, era o recurso que lhe sobrava mas agora parecia não funcionar... Relutou um pouco mas cedeu à fazer planos, tentando analisar as coisas logicamente.

Precisava encontrar Nicolle que já não aparecia à quase dois dias, e precisava de uma vontade, qualquer coisa que lhe obrigasse a querer e assim passar o tempo. Não fazia ideia de como ter ou comprar uma coisa dessas mas teria de descobrir.

Ao girar a chave na fechadura tinha um plano definido mas isso não mudava em nada aquela sensação. Um pequeno sussurro se repetia em sua mente no ritmo em que respirava.

"Pra onde vamos agora?"

sábado, 15 de maio de 2010

Implosao

As pessoas que passavam apressadas pela rua olhavam-lhe apenas de relance, mas podia perceber suas expressões. Com certeza não era tão normal ver uma pessoa parada naquele lugar ou em qualquer outro, ainda mais no movimento acelerado do fim da tarde. Mas por trás do silencio quase fúnebre, as coisas corriam mais rápido do que Alice podia acompanhar.
Tentou encontrar uma resposta sobre o que havia acontecido, algo a mais do que teorias improvisadas, mas nada fazia sentido. Talvez tivesse perdido em algum lugar as ultimas forças que guardava para suportar tudo aquilo. Agora tinha uma boa porção de sentimentos ferozes e talvez sedentos de vingança pelo tempo confinados.
Imaginava seus transtornos como vários cães negros correndo mais rápido do que poderia enxergar, arrancando de passagem, pedaços grandes de seu corpo, ou talvez de sua alma, o que dói mais afinal? Sabia que tentar fugir seria inútil, mas ainda não fazia ideia de como lutar contra isso ou do que aconteceria no final. Por um momento desejou apenas braços que lhe envolvessem e dissessem que está tudo bem, mesmo não estando.
Percebeu então que estava só, mas de maneira nenhuma queria isso.

Explosão

Fechou os olhos com força e abriu-os mais uma vez, nada. Tentou chamar baixinho para que talvez ouvissem, nada. Tentou se concentrar, acreditar com todas as forças que ainda tinha mas nada se movia nem um milimetro, apenas coisas sem vida.

Olhava para as manchas brancas no teto, algumas cuidadosamente pintadas, com formas bem definidas, outras apenas respingos como havia no quarto todo devido a seu momento de raiva. Seus braços doíam, já não tinha forças para levantar-se e pouco via do estrago que havia feito. Sua respiração ainda era rápida e as lagrimas começavam a molhar o rosto já úmido de suor e tinta.

Passou a considerar que talvez não fosse possível reproduzir todas as coisas, por mais vontade que se use, só consegue-se coisas mortas e paradas. Nada seria como era antes, teria que lidar com o presente, fazer tudo o que não queria.

Seus olhos se fechavam de cansaço mas esforçava-se para mante-los abertos, não queria sonhar de novo, também não queria ficar acordada, não sabia bem o que queria... apenas no fundo, tinha uma pequena esperança de que tal coisa existisse.

O sono veio mais forte, as forças se foram, os olhos se fecharam. Então veio a noite, a manhã, e com o sol em seus olhos, percebeu que havia tomado uma decisão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Almoço

- Sua comida está esfriando, Alice.
Ela observava seu prato com o olhar perdido, o garfo e a faca parados no ar, enquanto fragmentos de conversa se misturavam à seus pensamentos borbulhantes.Observava os gestos espontâneos e um tanto indelicados de Cláudia. Apesar da rigidez e a cara de poucos amigos, aquela mulher dava tudo de si pelos outros. Devia ter seus próprios problemas, mas deixava-os de lado para cuidar de uma família que não era dela. Cláudia podia resolver qualquer coisa, podia ser tão áspera quanto gentil, era difícil imaginar Onésio vivendo sem ela.
O meio tom da conversa silenciou subitamente, as cabeças abaixadas demonstravam que chegara-se ao assunto corriquenho daqueles dias, ninguém falaria mais nada por algum tempo.
Completamente alheia , Alice apenas observava, colhia expressões inconscientemente, absorta em seus próprios pensamentos, não tinha muita fome , mas mal podia esperar para fazer um bolo com Claudia, não que gostasse muito de cozinhar, mas estando com ela sentia-se menos sozinha. Os talheres retiniam quebrando o silencio e os pratos se esvaziavam. Quando todos se levantaram, Alice fitou ansiosa o rosto de Cláudia que lhe sorriu.
- Me ajude com a louça e logo começamos.
- Certo!
A agua da torneira cortava o silencio e tudo voltava a ser apenas dia.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

mais de alice

Quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três... Boas meninas. Hoje fui ver meu pai outra vez... Mesmo sabendo que ele vai sair de lá logo, ainda me sinto vazia... Não sei bem o que pensar de tudo isso... Sei que as pessoas não deviam se matar, não deviam ter jogado mísseis, não deviam fazer nada disso... Nós devíamos ser como vocês, vivendo juntas no mesmo teto, mesmo sendo tão diferentes... Quanto tempo eu dormi?
O relógio no criado mudo marcava quinze horas, Alice sorriu, ainda tinha um pedaço de domingo pela frente. Olhou seu próprio sorriso no espelho, podia sorrir tão facilmente quanto chorava, sentiu se melhor sorrindo.
Ajeitou a boina na cabeça e recolocou os sapatos, alguém teve o cuidado de retirá-los antes de pô-la na cama. Desceu para a cozinha, onde uma pilha de pratos na pia denunciava que já haviam almoçado, não sentia fome, dirigiu-se a pia e começou a lavar os pratos e talheres, a água gelada feria-lhe até os ossos, mas ao mesmo tempo causava uma sensação gostosa, tornando tudo à sua volta mais real.
- Coma alguma coisa, Alice. Você não come nada desde cedo.
Diego apareceu na porta, seu olhar distante lhe fitava com um cuidado quase paterno. Alice tinha contado os pratos, sabia que ele também não havia comido, mesmo assim ele se importava em cuidar dela. Diego era só um ano mais velho que Alice, mas sentia-se responsável pela irmã.
- Estou sem fome, mesmo que eu tente, não vou conseguir comer.
Diego deu de ombros sabendo que era inútil insistir e ajudou-a a secar os pratos, a louça tilintava tentando esconder o silêncio quase fúnebre. Apesar de não falarem entendiam seus mútuos pensamentos.
Antes de sair da cozinha, ela olhou mais uma vez para Diego.
- Obrigada por se importar comigo.
Ele deu de ombros:
- Todo mundo se importa.
Alice sorriu para o irmão e saiu a procura de Onésio; o tio lia o jornal sentado em sua poltrona. Apesar de pouco ter olhado, um detalhe não escapou à atenção de Alice.
Tio, esse jornal é de ontem.
Bom, não importa muito, as noticias são as mesmas. Está se sentindo melhor?
Sim, tio; acho que vou dar uma volta.
Tome cuidado Alice, fique longe dos militares... e não demore muito, já está tarde, essa hora eles começam a beber.
Esta bem, eu volto logo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Narciso

O relógio do quarto marcava meio-dia, o homem da cama ao lado havia acordado e tomava um prato de sopa, auxiliado pela enfermeira.
- Bom dia, seu Pedro! Intão foi dá uma volta hoje?
Pouca coisa havia sobrado àquele homem, a perna que não tinha sido mutilada, era devorada dia após dia pelo tétano. Um de seus braços terminava em uma atadura logo abaixo do cotovelo, e um rosto desfigurado por alguma explosão completava a imagem lastimável do pequeno homenzinho que sorria em seu leito. Poucas pessoas haviam perdido mais do que ele naquela guerra, mesmo assim, nada o fazia esconder aquele sorriso amarelo.
Como ele podia sorrir nessa situação? Como podia transmitir tanta força aos outros sem ter aparentemente nenhuma?
Quando conheceu narciso, Alice perguntou a seu tio como podia ser isso.
- A Esperança é difícil de tirar das pessoas, Alice.
Ela não perguntou mais nada, mesmo assim, não deixo de imaginar como tal homem podia ter esperança. Ninguém de sua família havia sobrado, sua casa era um monte de ruínas, estava condenado a mendigar para sobreviver, e como pois sorria esse homem?
- Ah Narciso, como precisava respirar um pouco, sentir um cheiro diferente... e por falar nisso, que cheiro bom dessa sopa hein!
A voz do pai despertou Alice para a realidade, ela tentava acompanhar a conversa.
- É seu Pedro, logo oçê também vai tá metendo o beiço nessa sopa aqui, e sabe o que mais, o governo vai mi da um par de pernas!
- Pernas?
- É, pernas micânicas! Ai só vo precisa de um par de muletas!
- Mas como vai segurar as muletas?
- Ah, isso nois vê dipois, que importa é que eu vô ter pernas otra veiz, a idéia di dependê de rodas pro resto da vida já tava me incomodando.
Alice sorriu, a maneira como aquele homenzinho dava valor às coisas lhe desafiava a compreensão.
- E seu istômago?
- Já esta quase bom, mais uma semana e poderei tomar sopa com você.
- Squéci a sopa, Pedro. Daqui um tempo nois vamo come é churrasco.
- É... churrasco!
Alice olhou mais uma vez para o sorriso amável do pai, talvez daí ele tirasse forças para suportar tudo. De um pequeno toco de homem, que possuía um grande sorriso.
- Senhores, o tempo de visita acabou.
Alice sentiu seu estômago gelar. Teria de ir outra vez, ir e deixa-lo ali... grudou-se ao pai novamente e tentou fugir dali, esquecer tudo e voltar aos dias bons.
Agora estava de volta à pequena sala, voando nos braços do pai, seu coração batia apressado, mas não tinha medo de cair, podia voar o quanto quisesse, sempre haveria os braços fortes lhe segurando.
- Vamos, Alice. Temos que deixar seu pai descansar agora.
Ela se deixou retirar, mas antes de ir, correu ao leito de Narciso.
- Por favor, cuide do papai.
- Fique tranqüila, mocinha. Deus ta cuidando dele, Ele cuida bem de todo mundo, e seu pai é um homem muito forte.
Sim, ela sabia, só queria ser tão forte quanto ele...
Deixou-se levar pelo corredor do hospital, aos poucos voltava a lembrança da sala onde voava, sem precisar sentir medo.
A paisagem que passava pela janela já não parecia ter sentido, tudo se misturava em uma grande mancha cinzenta. Alice sentiu ter deixado parte de si mesma no hospital, o vazio já tão grande, agora aumentava. Não sabia mais o que pensar, o que ouvir, nada mais fazia sentido, os olhos ainda molhados de lágrimas se fechavam lentamente, na tentativa de fugir de qualquer coisa.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Mais um pouco sobre Alice

O vento entrava pela pequena fresta de vidro aberto e enchia o interior do carro, trazendo o leve cheiro de pólvora, que, mesmo depois de tanto tempo, insistia em permanecer no ar como uma maldição. Para que nunca ninguém esqueça... Alice olhava as ruínas que passavam rapidamente, em alguns pontos, as casas já começavam a se reerguer, homens e mulheres trabalhavam sob o sol árduo para que paredes subissem, trazendo de volta o que fora destruído. A cidade se recompunha, mas nunca seria como antes, agora as ruas eram povoadas de soldados a quem deviam respeitar e obedecer. Alice evitava-os sempre que possível, não gostava da idéia de respeitar aqueles assassinos, mas também não queria que nada de ruim acontecesse...
Diego também olhava pela janela, mas com os olhos distantes e a expressão pensativa, parecia enxergar muito além do que via. Ele não era mais o mesmo, o Diego alegre e barulhento, que chorava por qualquer motivo havia desaparecido para dar lugar a um ser humano sombrio e distante, nunca mais vira em seu rosto um sorriso ou sequer uma lágrima, nem mesmo quando Tom morreu ela vira algum sinal de mudança em sua expressão. Agora ela dificilmente ouvia a voz do irmão, diferente das longas conversas de antigamente, agora ele só falava o necessário do dia a dia, passando quase todo o tempo a fitar algum ponto qualquer, com a mesma expressão distante .
Quando era pequena, Alice havia ralado o joelho e chorava desesperadamente nos braços de sua mãe, seu tio Onésio deu-lhe uns tapinhas e disse:
- Não chore demais Alice, senão suas lágrimas vão secar.
Agora pensava se não seria isso que ocorrera com o irmão. Será que ele chorou demais e riu demais? Mesmo assim, não conseguia encontrar uma forma de secar o riso.
O carro parou em uma avenida, já próximo ao hospital; o trânsito aguardava pacientemente enquanto um grupo de manifestantes era massacrado pelas forças de ocupação.
- Eles são loucos de fazer isso...
Alice percebeu um leve tom de indiferença em sua voz, o suficiente para despertar o irmão de seu silencio habitual.
- Não despreze os loucos, Alice. Eles têm mais coragem que nós e podem fazer coisas muito maiores.
Pensou em responder alguma coisa, mas Diego já havia retornado aos seus pensamentos. O carro voltou a se movimentar e Alice pôde ver os manifestantes algemados junto à parede, exibindo os hematomas recém adquiridos, agora os militares estavam algemando a equipe de reportagem que veio para cobrir o evento. Será que eles podem fazer coisas grandes mesmo?- Pensou – agora, algemados, vai ficar mais difícil...
A cena ficou para trás e ninguém mais falou até o hospital. Tio Onésio, que costumava tagarelar por horas a fio, ainda não dissera nenhuma palavra. Apesar de sentir-se bem com o silencio, Alice estava muito ansiosa para ficar quieta. Começou a estalar os dedos para aliviar a tensão e logo tio Onésio juntou-se à melodia e até Diego, depois de resistir um pouco, entregou-se à sinfonia de estalos. Assim foram estalando os dedos até o hospital.
No corredor silencioso do hospital, Alice podia ouvir seu próprio coração batendo descompassadamente. Havia se preparado para aquela ocasião, mas agora, não podia deixar de sentir medo. Sempre que via o pai em seu sofrimento silencioso, tinha medo do que viria pela frente.
A porta abriu-se num pequeno escândalo de rangidos, revelando um homem forte e robusto, agora completamente inútil em seu leito. Ele olhou a porta e fez-se num grande sorriso.
- Não é que vocês chegaram então... quem vem primeiro me dar um abraço?
Ao ver o grande sorriso do pai, Alice não pode deixar de sorrir também, correu para junto do leito e abandonou-se sob o braço que restara, esquecendo da vida e do mundo.
Diego abraçou o pai discretamente, deixando escapar uma expressão alegre, mas sem sorrir, e em seguida, foi a vez de tio Onésio, que teve de ser removido para não esmagar o irmão em seus braços de urso. Todos esforçavam-se por sorrir quando estavam naquele quarto, mas tio Onésio agora chorava como uma criança. Ele havia retido as dores ao máximo, mas agora elas escapavam contra sua vontade, através de uma explosão de lágrimas.
Enquanto tio Onésio se recompunha, a enfermeira tratou de trazer uma cadeira de rodas, com a ajuda Diego, ela pôs o homem do leito, na cadeira, ajeitando o soro no suporte. Exibindo o mesmo sorriso, ele assumiu voz de comando para seu primeiro passeio depois de vários meses.
- E então, o que estamos esperando? Vamos embora!
Nesse momento Alice percebeu nada fora grave o suficiente para afetar seu Pai, mesmo em uma cadeira de rodas ele ainda lhe transferia forças, tiradas sabe-se lá de onde, motivando-a a nunca desistir.
O parque estava vazio naquela manhã, apenas algumas senhoras passeavam com seus cachorros pela única pista que sobrara. As ruínas da estufa sobressaiam imponentes, dando a entender que aquele já foi um belo lugar. Alice fitou os olhos de seu pai, perdidos entre as ruínas, com a mesma expressão distante que já vira nos olhos de Diego. Podia enxergar neles um misto de raiva e melancolia, raiva pelo estado da cidade que ele defendeu, mesmo com a própria vida, e a melancolia pela falta de esperança de que tudo volte a ser o que era.
- E a escola, Alice?
Ela acordou subitamente de seus pensamentos, apressando-se a responder.
- Ainda está em ruínas, os militares não permitiram que fosse reconstruída.
-Malditos...primeiro destroem nossa casa, agora querem destruir nossos direitos.
Sem entender porque, Alice contou o ocorrido daquela manhã, e as palavras de Diego.
- Sem dúvida eles vão acabar fazendo algo grande, mas isso lhes custará a vida.
Os dois estavam sentados em um banco de frente para o lago, tio Onésio estava deitado na grama ali próximo e Diego, sentado à margem, atirava pedras na água.
- Diego quase não tem falado ultimamente...
- Não julgue, ele tem seus motivos.
Ele parou de súbito, como se fosse terminar a frase.
- Sabe o que o Doutor me disse hoje?
- O que?
- Adivinha...
Alice estava a perder a paciência, ele sempre fazia isso nessas horas, e ela sempre se excedia em sua ansiedade.
- Vamos, diga logo, papai!
- Daqui duas semanas eu recebo alta... E sua mãe também!
Alice experimentou algo que a muito não sentia – a esperança voltou a visitar-lhe, avivando cada célula do seu corpo, mais uma vez abandonou-se no braço forte de sue pai e esqueceu de tudo ao redor.
- Diego! Papai e mamãe recebem alta em duas semanas!!
-Que bom!
Para a surpresa de Alice, surgiu nos lábios do irmão o principio de um sorriso. Será que ele está voltando? Ao perceber o olhar dela, Diego voltou a fechar o rosto e assim permaneceu.
- Já é hora de voltarmos.
Após um sorriso satisfeito, tio Onésio voltou à posição séria, ele também não estava normal. No caminho de volta lembrou-se de perguntar ao pai, enquanto Onésio e Diego colocavam a cadeira no porta-malas.
- Porque tio Onésio está tão triste hoje?
- Um grande amigo de seu tio, que estava desaparecido, foi encontrado ontem. Onésio ainda tinha esperanças de que o achassem vivo.
Ao ver a expressão de seu pai, Alice participou do sofrimento de Onésio. Porque as pessoas boas têm que sofrer?. Lembrou-se das palavras de seu professor, poucos dias antes dos bombardeios: Tudo atualmente é feito em prol do dinheiro, inclusive essa guerra.
Foi por isso que Tom morreu – pensou – E também o amigo de tio Onésio, assim papai perdeu o braço e está no hospital, para que alguns homens saciassem sua ganância. A maldita guerra...o maldito dinheiro.
Uma lagrima de raiva escorreu pelo seu rosto, ela secou-a com a mão e esforçou-se por sorrir. Queria também fortalecer seu pai, e transmitir-lhe a confiança que ele a pouco lhe dera, mas o máximo que conseguia era sorrir um sorriso falso, escondendo a dor.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Algo que achei em meio aos papeis antigos...

Antes de abrir os olhos, Alice deteve-se a ouvir os sons daquela manhã de domingo. Lá fora, na rua, o dia já estava agitado; vendedores competiam gritando em favor de seus produtos e brigavam pela escassa freguesia. Desde a guerra, a maioria das pessoas já chegara à miséria, em breve seria a vez dos comerciantes. Alice sentiu-se feliz por não chegar a isso, graças à seu tio, que os acolhera quando perderam a casa. Tio Onésio era um bom homem, o único homem rico e bom que ela conhecia. Apesar de seu rosto duro e áspero, nunca lhe encarava sem que surgisse em seus lábios um sorriso. Não fosse por ele, papai morreria - dissera sua mãe – o tratamento é caro e não temos como pagar.
Alice pensou em seu pai, estendido debaixo dos lençóis brancos do hospital. Seu braço esquerdo, antes tão ágil e forte, que por muitas vezes a suspendeu no ar, agora não passava de um toco que saía-lhe do ombro. Seu estômago dilacerado já não podia digerir o alimento, que era-lhe ejetado na veia. Apesar de tudo, papai sorria, demonstrava-se feliz todas as vezes que ela ia visita-lo. As vezes forçava o rosto para disfarçar a dor, assim como Ela mesma esforçava-se por disfarçar a tristeza de vê-lo em tal estado. Conversavam como se nada tivesse acontecido, como se o tempo pudesse voltar e então estivessem sentados na velha sala, rindo e brincando, como se ainda houvesse esperança.
Lembrou-se do irmão mais velho, o grande Tom, sempre competindo com todos e querendo ser o melhor em tudo. Apesar das richas, Alice gostava do irmão, no fundo podiam entender-lhe; e agora não deixava de visitar-lhe e chorar em sua sepultura. O velório foi feito com o caixão fechado... não era algo adequado para os olhos verem. Mais uma vez, Alice odiou a guerra.
Tom estava morto, seu pai, no hospital, iria ficar sem um dos braços, sua mãe que até então havia lutado para compensar-lhes as perdas, agora estava com a febre. Ela havia sido internada no mesmo hospital que papai, mas não podia vê-lo, por causa da sua doença, se ele pegar a febre, não terá mais salvação apesar de sua insistência, Alice também não podia ver a mãe, mas recebia suas cartas toda semana. O cheiro dos produtos usados na desinfecção não conseguia sobrepor-se ao doce perfume de sua mãe, que sempre lhe dizia que tudo ficaria bem e iam todos acampar no fim do ano.
Ainda de olhos fechados, começou a imaginar como seria a morte; após refletir um pouco, concluiu que não sabia como era morrer, mas um dia teria que passar por isso. O velório foi feito com o caixão fechado... não era algo adequado para os olhos verem. Imaginou a guerra... o rosto rude e desafiador de Tom... a granada explodindo em seu peito... morte
Em um sobressalto, Alice pôs-se a conferir todos os seus membros – estavam ali, estava respirando, seu coração batia. Então sentiu-se invadida por uma alegria intensa, era grata por estar viva, por poder abrir os olhos.
Agora, de olhos abertos, enxergava as manchas do teto, pôs se a contá-las atenciosamente para se certificar. Após três contagens, deu-se por satisfeita – estavam todas ali. Agora de manhã, eram apenas manchas, mas ela sabia que ali estavam animais misteriosos que lhe entretinham e contavam historias em suas noites de insônia. Uma vez, ouvira sua mãe dizer que, devido à situação, ela amadureceria mais rápido. Agora, com quatorze anos, já entendia muitas coisas, mas não deixava de acreditar nas historias que ouvira e principalmente naquelas criadas por ela. Não se importava se fossem só manchas fantasiadas por sua mente confusa, o fato é que elas lhe faziam sentir-se bem e não gostaria que nenhuma delas fugisse.
Alguém bateu à porta do quarto, logo a voz do irmão soou estridente pelo corredor:
_ Vamos Alice, o tio Onésio está esperando!
Ela olho para o pequeno relógio em seu criado mudo – dez horas. Nada de errado em acordar tarde no domingo... mas hoje é um dia importante.
Apressou-se em colocar as roupas separadas na noite anterior - normalmente não escolheria, mas esse dia era diferente. Seu pai, pela primeira vez nos últimos seis meses, poderia sair do hospital. Mesmo sendo por somente algumas horas, já era um grande consolo.
_ Já está pronta, Alice? Estamos saindo.
Agora a voz de tio Onésio soava pelo corredor atrás da porta, agora sabia que era sério.
_ Estou quase, só mais um minuto!
A voz saiu-lhe fraca e sonolenta, como se alguém falasse ainda de olhos fechados. Tomara que ele não pense que estou dormindo, é bem capaz de me deixar aqui... Correu para o espelho e pôs-se a observar seu aspecto atual – sonolência, mas não as olheiras de que esteve sem dormir, a sonolência torpe e amassada de que dormi demais. Seus cabelos, cortados logo abaixo da orelha, espalhavam-se alegremente em todas as direções, o que conferia-lhes o aspecto de uma pequena juba, pronta para impedir o acesso de qualquer escova. Não tenho tempo pra isso, pensou cobrindo os rebeldes com uma boina verde-soldado.
Olhou mais uma vez para a garota do espelho e mostrou-lhe a língua, debochando. Não achava-se bonita, nem fazia qualquer esforço para se-lo, simplesmente aceitava-se.
Começou a ouvir o ronco do motor lá embaixo, na garagem – o tempo acabara. Correu para porta e deteve-se um instante com a mão na maçaneta, olhou mais uma vez para as manchas do teto.
_ Não vão fugir enquanto estou fora!
Abriu a porta e desceu correndo até a garagem.