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sábado, 24 de abril de 2010

Vidente

Entrou devagar, as pernas ligeiramente tremulas, as mãos suando. Não se imaginava fazendo algo do tipo mas ali estava. Dirigiu-se ao homem sentado no chão que fitava-o com um olhar instável, algo entre a sabedoria e a loucura. Suas roupas eram normais, nada que caracterizasse sua profissão.
- Você é o vidente?
- O que você quer?
- Quero que leia minha mão.
O homem segurou-lhe a mão e virou-a para cima em um gesto impaciente, quase brusco. Analisou -a por alguns segundos e suspirou olhando-o nos olhos.
- Não há nada escrito na sua mão.
- Nada?Como assim?
- Você escreveu alguma coisa não sua mão?
- N.. não mas..
- Pediu pra alguém escrever na sua mão?
- Não.
- Então porque você vem aqui e pede pra eu ler sua mão se não há nada escrito?
- Bom.. você deveria ver o futuro...
- Futuro? O que você acha que é o futuro?
Ele fitou o chão por algum tempo, o rosto ficando vermelho, não apenas pelo nervosismo mas por não saber realmente uma resposta para aquela pergunta. O homem sorriu levemente mas seu olhar continuou duro, aquele ar meio insano mas que inspirava a existência de algum saber considerável.
- Meu filho.. ninguém pode enxergar seu futuro além de você mesmo. Ele não é um livro que todos podem ler, é um caderno em branco. Suas decisões tem sido difíceis mas não tomá-las vai te render apenas o mesmo caderno em branco, se você quer realmente saber seu futuro, livre-se desse medo inútil e escreva-o.
- Mas como me livro do medo?
- Desculpe, seu tempo acabou, precisa ir agora.
- Não.. espere, eu pago quanto você quiser, apenas me responda isso.
- Meu filho, eu não cobro por esse trabalho. Tenha um bom dia.
O homem virou-se e entrou pelas cortinas. Ainda com as pernas tremendo, ele saiu devagar da sala. Na porta, encontrou outro sujeito, mais baixo e, ao contrario do primeiro, usando roupas que mais pareciam uma fantasia.
- Me desculpe rapaz, tive uns contratempos, você esperou muito?
- Não, já estou de saída. O outro vidente me atendeu.
O pequeno homem olhou-o demoradamente como quem observa um caso sem solução, enfim suspirou e abriu a boca, a voz saia-lhe secamente.
- Eu sou o único vidente daqui.
Entrou fechando a porta atrás de si.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Egoista"

Havia muitos desenhos naquele muro, mas um em especial sempre chamava a atenção de David: a estranha mulher de camisola vermelha com seus olhos cansados, porém cortantes. Havia outras figuras legais como o olho desenhado em volta da câmera de segurança e o homem baixinho com chapeu e nariz gigantes, mas era a mulher que o deixava perplexo naquela tarde.
Ela era incrivelmente magra, a ponto de parecer apenas um esqueleto pintado com a cor da pele, seu rosto tinha manchas estranhas que deveriam ser rugas, na altura de sua testa, com algum esforço, conseguiu ler a palavra "egoísta". Nesse momento foi sacudido pelo braço enquanto ouvia a voz irritada de Sandy, abafada pelo ônibus que passava por eles.
- Acorda menino! Já não te ensinei a atravessar a rua?
Ele não gostava quando Sandy falava-lhe com esse ar de superioridade, mesmo quando ela estava certa. Ela era só dois anos mais velha e mesmo assim, agia como se fosse sua mãe. "De qualquer forma"- pensou - "pelo menos não fui atropelado".
Eles atravessaram a rua em silencio e afastaram-se do muro desenhado. Ainda pensativo, David arriscou perguntar à irmã:
- Sandy, por quê a mulher egoista do muro é tão magra?
Ela olhou-o como se fosse a pergunta mais idiota do mundo, depois olhou o vazio concentrada, como se fosse a mais dificil, finalmente concluiu:
- É simples. Essa mulher está ai todo dia e o dia todo hà mais de três anos! E, que eu saiba, ninguém vem trazer comida pra ela, por isso ela é magra assim.
Convencido com a resposta e com o humor da irmã, decidiu arriscar mais uma pergunta.
- Mas o que é egoista?
Sandy pensou um pouco e depois deu de ombros jogando as mãos ao vento.
- Sei lá... deve ser uma pessoa com fome.
Os dois seguiram seu caminho hora em silencio, hora fazendo piadas. Depois de um tempo, David aprendeu o significado real da palavra egoísta, mas sempre a imaginava como uma mulher magra de camisola vermelha.