sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

mais de alice

Quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três... Boas meninas. Hoje fui ver meu pai outra vez... Mesmo sabendo que ele vai sair de lá logo, ainda me sinto vazia... Não sei bem o que pensar de tudo isso... Sei que as pessoas não deviam se matar, não deviam ter jogado mísseis, não deviam fazer nada disso... Nós devíamos ser como vocês, vivendo juntas no mesmo teto, mesmo sendo tão diferentes... Quanto tempo eu dormi?
O relógio no criado mudo marcava quinze horas, Alice sorriu, ainda tinha um pedaço de domingo pela frente. Olhou seu próprio sorriso no espelho, podia sorrir tão facilmente quanto chorava, sentiu se melhor sorrindo.
Ajeitou a boina na cabeça e recolocou os sapatos, alguém teve o cuidado de retirá-los antes de pô-la na cama. Desceu para a cozinha, onde uma pilha de pratos na pia denunciava que já haviam almoçado, não sentia fome, dirigiu-se a pia e começou a lavar os pratos e talheres, a água gelada feria-lhe até os ossos, mas ao mesmo tempo causava uma sensação gostosa, tornando tudo à sua volta mais real.
- Coma alguma coisa, Alice. Você não come nada desde cedo.
Diego apareceu na porta, seu olhar distante lhe fitava com um cuidado quase paterno. Alice tinha contado os pratos, sabia que ele também não havia comido, mesmo assim ele se importava em cuidar dela. Diego era só um ano mais velho que Alice, mas sentia-se responsável pela irmã.
- Estou sem fome, mesmo que eu tente, não vou conseguir comer.
Diego deu de ombros sabendo que era inútil insistir e ajudou-a a secar os pratos, a louça tilintava tentando esconder o silêncio quase fúnebre. Apesar de não falarem entendiam seus mútuos pensamentos.
Antes de sair da cozinha, ela olhou mais uma vez para Diego.
- Obrigada por se importar comigo.
Ele deu de ombros:
- Todo mundo se importa.
Alice sorriu para o irmão e saiu a procura de Onésio; o tio lia o jornal sentado em sua poltrona. Apesar de pouco ter olhado, um detalhe não escapou à atenção de Alice.
Tio, esse jornal é de ontem.
Bom, não importa muito, as noticias são as mesmas. Está se sentindo melhor?
Sim, tio; acho que vou dar uma volta.
Tome cuidado Alice, fique longe dos militares... e não demore muito, já está tarde, essa hora eles começam a beber.
Esta bem, eu volto logo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sorriso

Desenho um sorriso no rosto em branco;

Um sorriso de criança, torto e puro.

Faço olhos de lua minguante tortos

e cílios exagerados


Desenho um sorriso sem sobrancelhas,

mas com bochechas bem definidas;

Por capricho as faço coradas,

Em feição infantil e doce


É de fato um belo sorriso,

mas não é um sorriso verdadeiro,

é sincera a criança nele contida,

mas mesmo assim parece ilusório.


Eu, maldoso, minto à mim mesmo,

e desenho um sorriso,

mas não estou sorrindo.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Equilibrista

Entre o amor e o ódio
O jovem equilibrista
Sobe sua descida
Cumpre sua jornada

Em seu rosto, um sorriso improvisado
Os seus passos se efetuam com cuidado
E cada mão leva um estranho guarda chuva
Enquanto o sol castiga sua plateia

E segue o jovem equilibrista
Entre o amor e o ódio
Se move com tamanha destreza
Entre um e outro, faz piruetas

A plateia se fascina
O show se desenrola
Todos ficam boquiabertos
Às façanhas e expressões
De tão eximo artista

E se vê em suas expressões
Expressões de circo
Se nota em sua plateia
Plateia de circo
Em seu fantástico feito
Numero de circo

Mas não há sinal do circo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Gaiola

Desespero
(O constante bater de asas contra as grades)
Cativo
(O andar de um lado a outro sem esperança)
Inútil
(O silencio de um ultimo fôlego já sem voz)

O fechar de olhos,
conformado e preso,
por dentro e por fora.

Imagino

Imagino seus olhos, seus gestos
a falar sobre a frieza da humanidade
imagino a mim mesmo, tão feliz por dentro
olhos atentos a cada palavra
Imagino ter encontrado...

e tentei desvendar seus olhos
mas não sou mesmo bom nisso
só percebo que talvez
você busque o mesmo que eu
mas são palavras ao vento
pois nada sei, somente imagino
e adormeço sorrindo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Narciso

O relógio do quarto marcava meio-dia, o homem da cama ao lado havia acordado e tomava um prato de sopa, auxiliado pela enfermeira.
- Bom dia, seu Pedro! Intão foi dá uma volta hoje?
Pouca coisa havia sobrado àquele homem, a perna que não tinha sido mutilada, era devorada dia após dia pelo tétano. Um de seus braços terminava em uma atadura logo abaixo do cotovelo, e um rosto desfigurado por alguma explosão completava a imagem lastimável do pequeno homenzinho que sorria em seu leito. Poucas pessoas haviam perdido mais do que ele naquela guerra, mesmo assim, nada o fazia esconder aquele sorriso amarelo.
Como ele podia sorrir nessa situação? Como podia transmitir tanta força aos outros sem ter aparentemente nenhuma?
Quando conheceu narciso, Alice perguntou a seu tio como podia ser isso.
- A Esperança é difícil de tirar das pessoas, Alice.
Ela não perguntou mais nada, mesmo assim, não deixo de imaginar como tal homem podia ter esperança. Ninguém de sua família havia sobrado, sua casa era um monte de ruínas, estava condenado a mendigar para sobreviver, e como pois sorria esse homem?
- Ah Narciso, como precisava respirar um pouco, sentir um cheiro diferente... e por falar nisso, que cheiro bom dessa sopa hein!
A voz do pai despertou Alice para a realidade, ela tentava acompanhar a conversa.
- É seu Pedro, logo oçê também vai tá metendo o beiço nessa sopa aqui, e sabe o que mais, o governo vai mi da um par de pernas!
- Pernas?
- É, pernas micânicas! Ai só vo precisa de um par de muletas!
- Mas como vai segurar as muletas?
- Ah, isso nois vê dipois, que importa é que eu vô ter pernas otra veiz, a idéia di dependê de rodas pro resto da vida já tava me incomodando.
Alice sorriu, a maneira como aquele homenzinho dava valor às coisas lhe desafiava a compreensão.
- E seu istômago?
- Já esta quase bom, mais uma semana e poderei tomar sopa com você.
- Squéci a sopa, Pedro. Daqui um tempo nois vamo come é churrasco.
- É... churrasco!
Alice olhou mais uma vez para o sorriso amável do pai, talvez daí ele tirasse forças para suportar tudo. De um pequeno toco de homem, que possuía um grande sorriso.
- Senhores, o tempo de visita acabou.
Alice sentiu seu estômago gelar. Teria de ir outra vez, ir e deixa-lo ali... grudou-se ao pai novamente e tentou fugir dali, esquecer tudo e voltar aos dias bons.
Agora estava de volta à pequena sala, voando nos braços do pai, seu coração batia apressado, mas não tinha medo de cair, podia voar o quanto quisesse, sempre haveria os braços fortes lhe segurando.
- Vamos, Alice. Temos que deixar seu pai descansar agora.
Ela se deixou retirar, mas antes de ir, correu ao leito de Narciso.
- Por favor, cuide do papai.
- Fique tranqüila, mocinha. Deus ta cuidando dele, Ele cuida bem de todo mundo, e seu pai é um homem muito forte.
Sim, ela sabia, só queria ser tão forte quanto ele...
Deixou-se levar pelo corredor do hospital, aos poucos voltava a lembrança da sala onde voava, sem precisar sentir medo.
A paisagem que passava pela janela já não parecia ter sentido, tudo se misturava em uma grande mancha cinzenta. Alice sentiu ter deixado parte de si mesma no hospital, o vazio já tão grande, agora aumentava. Não sabia mais o que pensar, o que ouvir, nada mais fazia sentido, os olhos ainda molhados de lágrimas se fechavam lentamente, na tentativa de fugir de qualquer coisa.